
Estamos esgotados. Isso é um fato. Também é certo que precisamos cuidar melhor de nossa saúde mental e emocional. Entretanto, tem algo que poucos admitem: cuidar de si tem um custo real.
Gostamos da palavra “equilíbrio”. E geralmente usamos essa palavra para dizer: é preciso ter equilíbrio – supostamente, é possível equilibrar vida profissional e vida pessoal, garantindo que ambas funcionem bem. Mas a própria palavra “equilíbrio” projeta uma ilusão. Ela transmite a ideia de que é possível organizar a rotina perfeitamente: a carreira crescendo, as contas em ordem, a mente descansada. Relacionamentos saudáveis, o corpo funcionando bem, a espiritualidade alinhada. Tudo sob controle.
Contudo, a vida real recusa essa tese. Não dá para ter tudo.
A suposta busca pelo equilíbrio quase sempre começa quando algo importante já saiu do lugar. Quando o corpo cansa. A ansiedade aumenta. A paciência diminui. A vida vira pura sobrevivência.
Surge, então, a promessa clássica: “Eu preciso cuidar mais de mim. Vou buscar viver com mais equilíbrio”. Poucos fazem a pergunta que realmente importa: o que você está disposto a perder para viver de forma mais saudável?
Cuidar de si exige renúncia. A vida com equilíbrio cobra um preço. É preciso simplificar. E para simplificar, renunciar algumas coisas. E a renúncia dói. Dizer “não” gera perda imediata – inclusive financeira.
O descanso cobra o seu preço. Descansar significa produzir menos. Crescer em um ritmo mais lento. Não estar em todos os lugares. Não responder a todos na velocidade que o mercado espera. Em um mundo obcecado por performance, desacelerar é frequentemente confundido com fracasso.
Ao estabelecer limites, algumas pessoas também se frustram. Muitos preferiam a sua antiga disponibilidade total. O seu excesso. A sua incapacidade de recusar. Quando você muda, faz menos. E ao fazer menos, causará insatisfação naqueles que estavam acostumados com sua intensidade.
Por sinal, vale a reflexão: quantas vezes você aceitou mais do que podia suportar apenas para manter uma imagem? Para continuar sendo necessário? Para não correr o risco de desapontar alguém?
Há uma verdade profunda nesse mecanismo. Às vezes, aquilo que adoece você também é o que recompensa você. O excesso de trabalho destrói a saúde, mas traz reconhecimento. A agenda lotada sufoca a mente, mas faz você se sentir importante.
Identidades inteiras são construídas sobre a produtividade. Há quem não saiba mais quem é sem a correria, sem a urgência. Por isso, desacelerar gera angústia. Não é apenas uma mudança de rotina. É um luto. Significa abrir mão da versão que dava conta de tudo, da eficiência outrora admirada.
Muitas vezes, quando finalmente paramos para descansar, não encontramos paz. Encontramos ansiedade. O silêncio revela o que a correria escondia.
Ritmos insustentáveis são mantidos pelo medo da perda. Medo de perder dinheiro, prestígio, espaço ou pertencimento. Diante disso, a indagação existencial torna-se inevitável: o que quero para mim?
Cuidar de si tem um preço. Também dói. Parece atraso. Mas o processo de simplificar, reduzir, perder parte do que fazemos, interrompe um ritmo que pode estar nos destruindo aos poucos. E nos devolve vida.–
Ronaldo Nezo
Comunicador Social
Especialista em Psicopedagogia
Mestre em Letras | Doutor em Educação
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