Início Colunistas O político que nos separa: vale a pena?

O político que nos separa: vale a pena?

Ouvi ainda hoje uma pessoa comentando que alguns de seus antigos amigos — e até parentes — ainda não falam com ela por causa de suas manifestações políticas em eleições passadas. Num ano eleitoral, fico pensando: nossos políticos de estimação valem tudo isso?

É fato que parte de nossa opção a determinados políticos se relaciona com a convicção que temos do que é certo e do que é errado — ou do que é melhor ou pior para nós e para o país. E nesse conjunto de convicções estão presentes crenças ideológicas, filosóficas, religiosas e até alguns medos e preconceitos.

Mas o que pouca gente admite é que essas convicções nem sempre são fruto de uma reflexão cuidadosa. Muitas vezes, elas são herdadas — da família, do grupo social, do algoritmo que nos entrega apenas o que já queremos ouvir. E, assim, a gente veste a camisa de um político como quem veste uma identidade. E ataca quem veste outra.

Esse alinhamento a certas figuras políticas também surge em função de narrativas que abraçamos. E quando falo em narrativa, simplifico, semelhante ao que faço em algumas das minhas aulas, como “a ideia que fica”, a história que faz sentido para nós. Esse “fazer sentido para nós” nem sempre tem a ver com a realidade. O real existe, mas o real pouco se assemelha às imagens que construímos sobre a realidade.

E, neste sentido, talvez por pouco conhecimento ou até certa ingenuidade, aderimos a certas narrativas e passamos a reproduzi-las como se fossem fiéis aos fatos. A psicologia chama isso de “viés de confirmação”: a gente busca, inconscientemente, informações que reforcem o que já acredita, e ignora ou desqualifica o que contradiz. Assim, quando alguém discorda do que defendemos, preferimos romper com a pessoa a mantê-la por perto. Porque a dissonância incomoda mais do que a solidão.

Também é curioso que alguns de nossos embates públicos têm a ver com moralidade. Ideias do tipo: não voto em fulano porque rouba. Mas não é difícil observar que, quando se trata do nosso político, encontramos justificativas para seus desvios morais.

Por que isso acontece? Porque a mente humana é mestra em criar justificativas para proteger o que já escolheu. A psicologia social chama isso de “dissonância cognitiva”: a gente não suporta a ideia de ter escolhido alguém que não merece. Então a gente relativiza. Diz que “todo mundo faz”. Diz que “mas o outro lado é pior”. Diz que “ele até rouba, mas faz”. A gente ajusta a régua moral para encaixar a escolha que já fez.

Também há outros motivos para que adotemos alguns políticos como se fossem extensão de nós mesmos. Há o pertencimento: apoiar um grupo nos dá uma tribo, um lugar, uma sensação de não estar sozinho. Há a busca por segurança: acreditar que alguém vai resolver nossos problemas nos alivia da responsabilidade. E há, sim, um certo conforto em simplificar o mundo em dois times: nós, os certos; eles, os errados.

No fundo, as pessoas com as quais rompemos quase sempre querem as mesmas coisas que nós: uma vida melhor para elas, para as pessoas que amam e para o próprio país. Ou seja, há algo que nos une. Talvez os caminhos que acreditamos que funcionam é que são diferentes.

Entender isso é um primeiro passo para a reconexão, para a reaproximação. O segundo passo, quem sabe o mais importante, é compreender que bloquear quem pensa diferente de nós é uma forma de desumanizar o outro, de deslegitimar sua existência. E isso não apequena apenas a existência do outro, também nos torna pessoas menores.

Porque, ao desumanizar o outro, a gente perde a capacidade de diálogo. Perde a humildade de aprender. Perde a chance de enxergar que a verdade raramente cabe inteira num só lado. Perde a própria humanidade — porque humanidade se mede também pela forma como tratamos quem discorda de nós.

Ronaldo Nezo
Comunicador Social
Especialista em Psicopedagogia
Mestre em Letras |  Doutor em Educação

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