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O que você faz com o que acontece com você?

Duas pessoas perdem o emprego no mesmo dia, na mesma empresa e pelo mesmo motivo. Uma delas passa semanas paralisada, alimentando a mágoa, convencida de que foi injustiçada e de que o mercado de trabalho não lhe dará outra chance. Acredita que dificilmente conseguirá outro emprego com o mesmo salário. Já a outra pessoa aproveita o tempo para revisar o currículo, identificar o que precisa melhorar e avaliar o que aconteceu. Procura cursos de qualificação, busca se reposicionar profissionalmente, faz contatos e atualiza seu perfil no LinkedIn.

O que terá acontecido com essas duas pessoas um ano depois? É bastante provável que suas histórias sejam diferentes e que estejam vivendo realidades profissionais distintas.

O acontecimento foi o mesmo para as duas. O que cada uma fez diante dele, não.

É isso que ajuda a definir quem nos tornamos. Não apenas o que a vida nos faz — as perdas, as traições, as portas que se fecham, os planos que desmoronam, as injustiças que ninguém conserta. Essas coisas fazem parte da experiência humana. O que nos diferencia é a maneira como respondemos a elas.

O filósofo estóico Epicteto, que viveu como escravo antes de se tornar um dos pensadores mais influentes da Antiguidade, ensinou algo que continua atual: não controlamos tudo o que acontece, mas podemos escolher como responder. Séculos depois, Viktor Frankl, sobrevivente dos campos de concentração nazistas, desenvolveu uma reflexão semelhante: entre aquilo que nos acontece e a maneira como reagimos existe um espaço. É nesse espaço que encontramos a possibilidade de exercer nossa liberdade.

Os dois pensadores viveram experiências radicalmente diferentes, mas chegaram a conclusões semelhantes.

Nossa resposta aos acontecimentos não precisa ser automática. Podemos aprender a construí-la conscientemente. Entretanto, isso exige um exercício que muitas pessoas nunca desenvolveram, muitas vezes porque não foram ensinadas a fazê-lo.

A tendência, quando algo doloroso acontece, é permitir que o acontecimento passe a nos definir. A demissão se transforma em identidade: “Sou alguém que foi descartado”. A traição vira uma crença: “Ninguém é confiável”. A perda se transforma em destino: “Minha vida nunca vai melhorar”.

Aos poucos, a pessoa deixa de agir sobre a própria vida e passa a ser governada pelo que lhe aconteceu.

Isso não significa ignorar a dor ou fingir que aquilo que aconteceu não machucou. Viktor Frankl não minimizou o horror que viveu nos campos de concentração nazistas. Ele carregou consigo a dor e as marcas do sofrimento. Entretanto, recusou-se a permitir que aquele horror tivesse a última palavra sobre quem ele era. E essa postura contribuiu para que sua trajetória se tornasse uma inspiração que atravessa gerações.

A maneira como respondemos ao que nos acontece pode incluir um período de luto — e, às vezes, isso é necessário. Pode envolver a raiva, que em determinadas circunstâncias se transforma em combustível para a mudança. Pode significar um recomeço, uma revisão de escolhas ou mesmo um período de silêncio antes de qualquer decisão.

O que não podemos é simplesmente abrir mão de escolher. Porque, quando deixamos de decidir como responder, corremos o risco de permitir que os acontecimentos determinem os rumos da nossa vida.
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Ronaldo Nezo
Comunicador Social
Especialista em Psicopedagogia
Mestre em Letras |  Doutor em Educação

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