
O cigarro voltou à moda. Ou, pelo menos, a estética dele. Nos últimos meses, as buscas por termos como “smoking pose” – ou, pose fumando – nas redes sociais dispararam mais de 70% entre os jovens. Perfis dedicados a resgatar fotos antigas de celebridades e supermodelos dos anos 90 com um cigarro entre os dedos acumulam centenas de milhares de seguidores. O glamour do tabagismo encontrou uma brecha para retornar.
Esse movimento é um sintoma do momento que vivemos. Testemunhamos uma geração cansada da cultura wellness — aquela cobrança por uma vida supostamente perfeita, dietas limpas, rotinas de exercícios, bom sono e produtividade – um estilo de vida equilibrado, integrando a saúde física, mental e emocional.
Tragar um cigarro ou usar um sachê de nicotina virou uma espécie de manifesto de resistência, de rebeldia contra a cultura do bem-estar, apresentada pelas redes sociais, pela mídia e pelos profissionais de saúde. É como se o jovem dissesse: “Eu cansei de tentar ser perfeito”.
A essa rebeldia, soma-se um sentimento de desamparo. Quando a juventude olha para o horizonte e se depara com um planeta em crise, guerras e um futuro financeiro incerto, a percepção de amanhã desmorona. Se o futuro parece um cenário de destruição inevitável, o cigarro vira o acessório estético de um niilismo moderno. É o charme do fim do mundo.
E a indústria se apóia no marketing para criar uma nova geração de viciados.
Relatórios da Organização Mundial da Saúde apontam que, embora o uso do tabaco tradicional tenha caído cerca de 27% globalmente nas últimas décadas, a experimentação de novas formas de nicotina entre adolescentes de 13 a 17 anos saltou quase 13%. O nojinho do cigarro convencional funcionou para os mais velhos, mas a indústria criou uma cortina de fumaça gourmetizada para capturar uma nova geração. E com as imagens que chegam do mundo da moda, a volta de fumantes exibidos em filmes e séries, e poses estilosas de fumantes nas redes sociais, desperta-se o desejo. Onde há imagem, há desejo.
E por que, mesmo sabendo que o cigarro faz mal, muita gente voltou a fazer uso do tabaco?
A neurociência nos ajuda a entender o que acontece dentro do cérebro. Vivemos um conflito de interesses em nossa cabeça. De um lado, o sistema límbico exige a recompensa imediata — a dopamina instantânea da nicotina. Do outro, o córtex pré-frontal tenta planejar as próximas décadas. Porém, diante de um mundo que parece sem futuro, o cérebro decreta o nocaute da razão. O presente ganha o governo da mente.
Para o jovem que consome nicotina hoje por pura estética ou para aliviar a ansiedade, o câncer é um problema de um “desconhecido” que vai habitar o seu corpo no futuro. Ele dá o golpe em si mesmo, consome a substância e deixa a conta para o seu “eu futuro” pagar.
Fumar sabendo que faz mal, portanto, não é ignorância. É uma fuga estética e existencial. É a busca por um momento offline, uma pausa no caos, mesmo que essa pausa custe a própria saúde.
A indústria do tabaco sabe disso e usa as redes sociais para transformar o vício em acessório de estilo, vendendo momentos de pausa e pertencimento para uma geração ansiosa e profundamente imersa no mundo digital.
Porém, romantizar o passado não muda as consequências do presente. A armadura estética das redes sociais continua escondendo um vício perigoso.
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Ronaldo Nezo
Comunicador Social
Especialista em Psicopedagogia
Mestre em Letras | Doutor em Educação
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