Reclamar do trabalho não resolve o problema

Conhece gente que vive reclamando do trabalho? É fato que pouca gente está satisfeita com o trabalho que tem. Uma pesquisa recente revelou que apenas 7% dos trabalhadores estão felizes – falei sobre isso na coluna da semana passada. Porém, quem vive reclamando do trabalho contamina a própria mente. Faz mal para a saúde mental. Por isso, se está ruim, a estratégia é simples: faça o seu melhor enquanto constrói a porta de saída.
Para muita gente, reclamar do expediente, do trabalho rotineiro, virou hábito. O sujeito chega de cara fechada. Fala mal da chefia no café. Reclama do salário na primeira oportunidade. Acha que a indignação diária alivia a frustração. Não alivia.
A murmuração constante não muda uma linha do contrato. Ela só envenena a sua própria cabeça e transforma a rotina num inferno particular.
Reclamar todo dia fortalece as conexões neurais do estresse, enche o corpo de cortisol e vicia a mente em enxergar apenas problemas. A queixa não alivia; ela treina o cérebro para ser amargo. E fazer corpo mole no trabalho por vingança é um tiro no próprio pé. A pessoa entrega um serviço desleixado para punir a empresa. Mas é o nome do profissional que sai manchado.
O desleixo pode até causar prejuízo à empresa. Pode custar uma venda, a perda de cliente, atrasar uma entrega. Mas também cobra um preço do próprio profissional. Colegas reparam, clientes percebem e, aos poucos, a reputação vai sendo construída para o lado errado.
A reputação é o nosso único patrimônio intransferível. E quem a joga fora, compromete a vida profissional. Por isso, não importa se o ambiente é injusto ou desorganizado. A assinatura do serviço continua sendo sua. O seu padrão de qualidade não depende do lugar onde você está.
E, além disso, a mediocridade vira vício. O cérebro aprende por repetição. E o que se repete vira hábito. Se você passa oito horas por dia fazendo as coisas de qualquer jeito, o desleixo deixa de ser protesto e vira padrão de comportamento. A gente se acostuma a fazer mal feito, a fazer de qualquer jeito. O serviço “meia-boca” é naturalizado.
Então, se o ciclo acabou e o espaço ficou pequeno, pare de gastar munição com revolta inútil. Não reclame de tudo e de todos. Cumpra a sua função com rigor impecável. Guarde a energia que você queima resmungando para estudar à noite, para se atualizar.
Ajuste as contas da casa para ter fôlego financeiro num período de transição. Faça contatos. Desenvolva novas habilidades nas horas vagas. Refaça o currículo. A liberdade tem custo; exige disciplina, cálculo e muita paciência.
Carreira sólida não se move por impulso ou pirraça. Ninguém é promovido nem contratado pela revolta que demonstra, mas pelo preparo que constrói – mesmo distante dos olhos das outras pessoas.
Quem deseja mudar de trabalho precisa ter um plano tático e não agir numa fuga desesperada. Ninguém constrói pontes usando a raiva como matéria-prima.
Mas deixe-me fazer uma observação: não estou dizendo que o trabalhador deve aceitar abuso, assédio, desrespeito ou condições injustas de trabalho em silêncio. Há situações que precisam ser denunciadas, enfrentadas e levadas aos canais adequados.
Portanto, se você está no time dos profissionais insatisfeitos, não faça da reclamação uma válvula de escape. Isso é uma autossabotagem. Entregue o seu melhor até o último dia pelo respeito que você deve ao seu próprio nome. E, enquanto cumpre o dever, construa a sua saída com método até poder cruzar o portão de saída de cabeça erguida.–
Ronaldo Nezo
Comunicador Social
Especialista em Psicopedagogia
Mestre em Letras | Doutor em Educação
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